lunedì 2 marzo 2009

AGUA - texto e foto de Astrid Lima


Água!

Me dizem que em Manaus tem chovido muito nas últimas semanas. Fecho os olhos e faço de conta que esse barulho de chuva no meu teto é o mesmo que se ouve numa varanda do interior amazonense e que o café aqui ao meu lado é o mesmo que faz companhia a todos os homens e mulheres naquele rápido e quase impeceptivel ritual amazônico que antecede o momento de ultrapassar o umbral da porta, de entrar embaixo da chuva e de enfrentar o mundo.

É isso o que farei daqui a pouco, quando sairei para a praça principal da cidade, junto com um grupo de amigos, recolhendo assinaturas para uma petição de iniciativa popular que pede a inserção, no estatuto da Prefeitura, da declaração de que a água é um bem universal, acima da relevância econômica e que, portanto, deve ser gerida pelo Estado. Além disso, pedimos que seja respeitado o principio declarado pela ONU de que cada ser humano tem direito a 50 litros de água diários e gratuitos, e em nenhum caso, por ser um bem vital à sobrevivência humana, o seu fornecimento pode ter interrompido.

Traduzindo: a água é patrimônio de todos os seres deste planeta e, por ser indispensável a vida, o acesso a ela não deve ser regulado pelas leis do lucro e da propriedade.

Enquanto escrevo e bebo o café, penso nos moradores das dezenas de bairros da periferia extrema de Manaus que, de madrugada, com ou sem chuva, começam a peregrinação aos poços artesianos, totens modernos de uma loucura sem nome que concluiu-se com a privatização da água na capital mundial da água.

Penso no nosso patriotismo, que aparece nos momentos mais inadequados, e que esteve estranhamente quieto — à exceção de uns poucos — quando o Estado do Amazonas renunciou à soberania sobre a nossa água para uma multinacional francesa.

E sem consultar a população.

Penso em Fernando Paraguassu de Sá, na CPI das águas, responder sobre como interpretava o fato de que a Águas do Amazonas não havia recebido nenhuma notificação de multas:

“eu posso supor que, por haverem dívidas conosco, por estarem, Estado e município, eles mesmos inadimplentes com a companhia de água, talvez, talvez por isso não tenham aplicados as multas”.

Ele podia supor.

É preciso ser mais claro que isso? É tão difícil entender que o então presidente da Águas do Amazonas considerava a omissão do Estado em proceder com a notificação de multas — legal e legítima — uma espécie de princípio insano da reciprocidade? E se assim fosse talvez, talvez (eu posso só supor) esse Estado caloteiro não corria o risco de ver a própria água cortada se decidisse exercer um real papel de controle?

Nenhuma surpresa, afinal Águas do Amazonas estaria reservando à “casa de todos nós” o mesmo especial tratamento dedicado a milhares de pessoas sem condições de pagar a própria água na cidade de Manaus.

Que ironia, não? Era necessário um manager paulista de uma multinacional estrangeira para colocar o Estado do Amazonas no seu devido lugar. E, depois de 9 anos, estamos ainda ali, naquele mesmo idêntico lugar.

Chuva. Terminei o café. Respiro fundo.

Penso na Cabral, e o rio rente roendo ruindo num subsolo de sonhos.

Penso na nossa poética, na nossa mitologia, no nosso próprio inconsciente, afogados em águas negras, amarelas, esmeraldas.

Não, querida poeta, irmã carissima das águas, nenhuma algema de pontes ou cativo fragmento no pote.

Eu vou mesmo é pra rua.

A água corre livre dentro de mim.
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

da autora:
http://omalfazejo2.wordpress.com/2009/02/03/a-proposito-de-sicko/
http://omalfazejo2.wordpress.com/2009/02/17/olhos-azuis/

4 commenti:

Germano Xavier ha detto...

É só o que está faltando. Privar a gente da água nossa de cada dia.

Aqui onde moro passa o Rio são Francisco, e estão matando ele com um projeto de transposição.

Até quando suportaremos tudo isso é a pergunta que fica no ar.

Um carinho, Myra.
Continuemos...

myra ha detto...

astrid aqui, esta lutando faz tempo,algo tem que se fazer,GermanoXavier !!!
um abraço,

yehuda ha detto...

Astrid é poeta e sonhadora e respeito sua visão utópica
mas vamos olhar de frente
a situação da água corrente
o povo elege a quem deseja
e de braços cruzados como ovelhas
não movem nem um dedo
não cobram seus direitos
não apertam o escroto saco do eleito
e este faz o que bem entende
lamentar - se é comoda preguiça

Aux armes citoyens,
Formez vos bataillons.
Marchons! Marchons!

que tal?

Astrid ha detto...

Caro GG,
mas a gente continua na luta, como diz um ditado italiano: agitando os braços para nàao afogar.
Um beijo meu querido amigo.