sabato 6 maggio 2017

eu vi eu vi de novo...
...e o que viu?
vi guerras, estive na Coréia, no Vietnã, na Chechênia, nas praias da Normandia,
senti o cheiro dos excrementos vindo das tripas dos soldados com o ventre aberto,
vi prisões na China, no Brasil, pisei na urina nos seus corredores malcheirosos,
vi a Somália faminta, homens, mulheres, crianças só pele e osso apodrecendo ao sol,
vi corpos decapitados nas planícies africanas, nas savanas incendiadas,
vi párias se banhando nas águas do Ganges pestilento, enquanto
marajás fumavam charutos e bois e vacas santificadas defecavam,
vi tiros e pedradas na faixa de Gaza e fingidas conversas de paz que jamais será,
vi bombas em Dublin e nos Países Bascos, em Londres, em Tel Aviv, em toda parte,
vi dois milhões de mortos na Indochina, meio milhão de comunistas trucidados na
Indonésia, quinze milhões enterrados na Sibéria,
vi a eficiência do Zyrkon-B, dez mil mortos em cada 24 horas,
vi os massacres em Wounde Knee, My-Lai, Ludice, Attica e Carandiru,
vi camponeses, pergaminhos esturricados na seca perene, e mortos em Canudos,
vi mãos decepadas nos reinados das Mil e Umas Noites, mulheres escondendo o rosto como
no tempo de Saladim, sem esperança de amor e carinho e luz do sol,
vi corpos boiando no maior rio da Terra, ganância e descaso imperando,
vi homens, mulheres, crianças mutiladas por minas terrestres em Angola,
vi o assassinato de Sacco&Vanzetti, os Rosenbergs eletrocutados, Herzog enforcado,
vi balas encravadas em Kennedy, Luther King e Malcom X, John Lennon apagado,
vi disenteria, centenas de sem-tetos, corações triturados, almas ocas,
vi o desespero de multidões querendo alcançar as estrelas...
...e não há esperança?
se houver um julgamento final, a humanidade inteira será condenada?
e as crianças, as almas puras serão poupadas?
sonhei uma vez, a cidade estava inundada, todos fugiam, na minha frente um homem
estendia a mão trêmula, pedia ajuda, socorro:

 era Deus?




Poema do Iosif - 2003

venerdì 5 maggio 2017

SANTA

Estranho pensar em você agora
que partiu quando eu estava longe
e voltei para enterrá-la
e não senti remorso


por não revê-la ainda em vida

Estranho pensar em você agora
quando meu fim se aproxima
e nunca ter sentido saudades suas
em toda minha vida

Estranho pensar em você agora
e na minha infância
e você linda e cheia de vida
não saía do meu lado

Estranho pensar em você agora
quando eu calvo, barrigudo, cansado
ainda me vigiava, olhar atento,
sua eterna criança

Estranho pensar em você agora
já envelhecida e tão generosa
que amava aquela mulher
que roubou seu garoto amado

Estranho pensar em você agora
por vezes rechaçada,
pouco compreendida,
por quem vivia ao seu lado
e apenas sorria sem paciência.

Estranho pensar em você agora
que sonhou através da existência
e comprava fantasias
nas cartomantes e falsas ciganas

Estranho pensar em você agora
que escapava dos pesadelos
com sonhos emprestados das drogas
escondidas na bolsa por você vigiada
com ferocidade

Estranho pensar em você agora
quando mergulhada na inconsciência
e sorria, apenas reflexo diziam,
eram visões, profecias, sonhos, milagres,
adorações, iluminações, êxtases,
era o mundo que você merecia

Santa piedosa, brilhante, inteligente,
Santa minha mãe
Você amou tanto a Vida!





nossa mae Helene
11 anos
22 anos
45 anos

poema de Iosif  Landau - 2003

giovedì 4 maggio 2017

Chegara ao Brasil com dezesseis anos em dezembro, meu aniversário dos
dezessete foi em abril de 1941. Bem vividos sob alguns aspectos,
testemunharam parte da história pouco nobre da primeira metade do século
XX. Eu era um inocente, um crédulo, um tímido, não imaginava a maldade, a
safadeza, a crueldade da alma humana. Eu era bom, gentil, alegre, educado,
nunca mentira em toda a minha ainda curta vida. Era um sonhador, via a
beleza sempre ao redor, amava os amigos, amava a vida, não sabia o que era
raiva, ódio, medo, temor. Era pródigo, o dinheiro no meu bolso era de todos,
minha casa era a casa dos amigos, eu era assim. Fui feliz e eu sabia que era
feliz. Por vezes meu "estopim curto", que não considero um grande defeito,
trazia-me encrenca. Gostava de esporte, de divertimento, minha sexualidade
era muito ativa, as mulheres fascinaram-me sempre. Sem ser um belo astro do
cinema, não precisei me empenhar muito nas conquistas, a todas eu tratava
com reverência, prostitutas e donzelas. Casei-me com a mais bela. A rendição
ao verdadeiro panorama, o despontar da realidade, da visão do feio, do ruim, o
que muitos consideram ser maturidade, chegou-me muito tarde, aos poucos,
sorrateiro, os ovos da serpente instalando-se em silêncio. O choque foi
violento, vivi o resto da minha vida como num ringue de luta, distribuindo
pancada, levando muita, caindo, levantando-me, às vezes derrubando o
oponente. Ganhei alguns rounds, perdi muitos, machuquei-me em demasia, fui
abençoado com cara de poucos amigos, mas não conheci o medo, enfrentei
com a coragem do desespero tudo o que vinha pela frente, aprendi a ser líder,
aprendi a engolir sapos, tive também recompensas, conheci como poucos meu
Brasil amado, sua natureza pungente, rios mares, a Amazônia cobiçada,
apaixonei-me pelo povo agreste, ajoelhei-me humilde diante da sua coragem.
Pergunto-me incessantemente, mesmo nesse instante: perdi ou ganhei? Valeu
a pena? Creio que as respostas agora nada significam. Se o sucesso dos meus
filhos é o meu grande troféu, valeu. Se o meu desapontamento com meu fim
de vida é o resultado, vale um zero. Não sei definir ética, comportamento
ético, o que significa? Fico me perguntando: o que valia na Grécia antiga, vale
hoje? Onde está a recompensa? A sociedade num todo se comporta de modo
duvidoso, por que então do indivíduo é cobrado o contrário? Desvio-me do
caminho, mas memória também é desabafo.


fragmento do livro Memoria Tumultuada de Iosif Landau


mercoledì 3 maggio 2017

ridi pagliacio

se me pedem conselho, dou de graça,
dizem que o quê não é cobrado não presta,
pode ser, amor pago às vezes supera o casto,
mesmo assim, quem quiser me ouvir,
coloco na mesa minhas cartas surradas.
a vida só faz perguntas, não dá respostas,
não procurem entender, é perda de tempo,
melhor ficar de quatro, gramar e ficar calado,
a porrada vem, dói pacas, mas com o passar do tempo
tudo acaba em deboche, se levar a sério, tá ferrado.
chiar não adianta, agarre o que puder,
dinheiro, mulher, carros, jóias e poder,
a justa só encana ladrão de pastel,
Ali Babá está sempre numa boa,
é isso que devem ser sem se arrepender.
a caminhada é longa, a subida inclemente,
andei por essa rodovia por mais tempo que devia,
sim, podem apostar, é longa e cheia de curvas,
deixei pra trás mais do que queria.
abandonei camas feitas de pétalas de flores
entrelaçado por rosas trepadeiras,
cada uma se dizia a mais amada,
devem se acostumar com a mentira.
e por favor, não mencionem o dia de amanhã,
não devem se preocupar com fato consumado,
o mundo está cheio de conversa fiada
e com licença da má palavra, não há cu que agüente.
na poeira, lama e grama queimada, ajoelhei-me
e rezei em desespero, por favor,
alguém me diga, por que a vida é rio safado
que nos afoga e dá risadas,
assim, um derradeiro conselho,
arrumem alguém de qualquer sexo,
falem sem rodeios, meu bem,
o amor eterno nos une, não há quem nos separe
porque o que sinto por você
só muito dinheiro pode me convencer do contrário,
me engane quando quiser, que eu gosto, podes crer.
morri mil vezes por dia, me lamentei, ainda choro,
caparam minha macheza, calaram meu uivo,
demoliram minha crença no bicho homem,
me enrabaram sem vaselina, riram da minha cara,
eu sorri amarelo, me deixaram prostrado,
a caminhada é longa, a subida inclemente,
andei por essa rodovia por mais tempo que devia,
sim, podem apostar, é longa e cheia de curvas,
deixei para trás mais do que queria.




poema do livro Eu Vi -2003
Um Nobel da Vida

Quando alguém ganha um Nobel aos sessenta anos, eu costumo dizer que o cidadão estava velho e, por isso, ganhou. Só velhos  salvo raríssimas exceções  ganham o Nobel. Mas o que é velho? Eu posso ser um velho de trinta e seis anos e um senhor dos seus setenta pode ser novo. A juventude aí não está no interior e sim dentro naquela força motora que faz do individuo um ser realizador. E, se às vezes a Academia não dá um Nobel, ou não o deu a muita gente  e um exemplo é Proust que, inclusive, foi rejeitado em favor de André Gide  é porque muitas vezes a vida já coroou o escritor com outros louros. Ou, se não o coroou, e nem irá fazê-lo, de que importam os prêmios? O que vale mesmo é a realização que dá e o êxtase que a arte provoca em si (no criador) como potência inovadora de si mesmo. O fato de religar, revitalizar, revigorar é que dá à arte da escrita a importância que ela tem.

Renovar-se, muitas vezes, é abandonar algo que se fazia para fazer outras coisas. Ou não: renovar pode ser, simplesmente, começar. Mesmo que este começo seja aos setenta anos. O Nobel Saramago que o diga: começou aos sessenta anos e é mais cultuado do que muitos ou todos os escritores que começaram bem antes de ele ter se iniciado na Literatura.

Foi depois de aposentado, que Iosif Landau começou a escrever. E foi logo partindo para a prosa policial, algo tão particular dentro da literatura, que por ser considerada por alguns críticos metidos a besta como "literatura menor", é muito difícil de ser feita. Pois a verdade é que este gênero literário exige um repertório de vida todo particular. Não é fácil fazer um bom livro policial. Mas assim começou o romeno Landau, aos setenta
anos, com o primeiro livro, COMISSÁRIO ALFREDO, editado em 1995; o segundo, OS ANJOS TAMBÉM MORREM, em 1997 e o terceiro, ENCONTRO EM SALVADOR, em 1998. Só a partir do quarto livro é que a poesia desabrochou suas flores em ELES, EU, OUTROS (poesia) e o sexto, CONFISSÕES (poesia), em 2001. Entre os dois, ele escreveu o quinto, TUDO POR NADA, também em 2001. E em ambos os livros de poemas o escritor se revela antenado com o que de mais interessante houve em matéria de literatura neste século. Principalmente, quando se diz um amante da beat generation, o que lhe aproxima dos ídolos Ginsberg, Kerouac, Ferlinghetti, Corso, Bouroughs, Bukowsky, Jim Morrisson, Bob Dylan, William C. William, Pound e Elliot.

A poesia de Iosif reflete toda a experiência de vida que ele tem. No poema "Quando", ele escreve "Quando uma criança morre/o anjo de Deus desce do céu/(...) e Deus aplaude". E conclui: "Quando um velho morre/o anjo de Deus desce do céu/(...) e Deus chora". Esta forma diferente como Deus trata ou acolhe um velho, ou uma criança, é o reflexo de como a sociedade trata o velho e a criança. Ambos nas extremidades da existência, ambos condenados muitas vezes a depender dos outros seres próximos, para conseguir levar uma vida plena. No caso, o metafísico entra no poema como uma espécie de eu coletivo, que adora a vinda de uma criança para o céu e detesta a vinda de um velho para próximo dele. Na verdade, tal fato mostra-nos como bem uma família trata a vinda de uma criança ao mundo, com carinho e, muitas vezes, como destrata o velho que não desencarna rápido. Um poema que exige o tratamento adequado, a solidariedade e o amor, que é do que todos nós estamos carentes, mas, muito mais, o velho.

g o t a s

Não são versos,
não têm rima,
nem poesia,
nem ardentes poemas.

Que importa se são
gotas
ou
enchentes!



O poema "Gotas" bem que poderia chamar-se "Lágrima". Dentro deste poema não há poesia havendo muito mais que poesia. Há desespero atávico pela vida. Há voragem de viver. Há desamparo e uma entidade muito importante para a subsistência humana: a vontade de potência. De que importa uma lágrima? Ou seria uma enchente?

A poesia de Iosif é carregada deste patos que se chama vida. É de vontade de viver e de se superar que o poeta escreve sobre si e sobre os outros.
Ele leva adiante a máxima socrática do conhecer-se a si mesmo. Bebe também do rio heraclítico e do "Come on Baby Light my Fire". Ou seja, é pop, beat e moderno. Triplamente ungido pelas musas...

Pela lente às vezes distorcida de uma realidade aprisionada no passado e redescoberta pela lente incisiva de um ser que aprendeu muito e ainda se considera um aprendiz beat no que o termo tem de mais romântico, nostálgico e carinhoso  assim é que Iosif Landau produz a sua obra: um eterno encontro com um novo dia, a cada dia, talhando o seu nome na estatueta principal que é a do Nobel da Vida.






lia  elena  iosif
sergio  luis roberto
entre temps
une fatigue
la gagnait
peu à peu

 peux pas
l'envoyer
se balader
dois la garder
rien à faire
supporter
cette fatigue
fluide néfaste
établie
dans moi

t'es cinglée ou quoi?
t'as qu'à crier
vite et fort

à la mort

-------------------------------------------------------

lunedì 1 maggio 2017

Quero hoje copiar algo que Jorge Pinheiro disse de mim...preciso  lembrar  um pouco de que fazia...e ja nao faco: pintar!!! 


Em 1968, Myra é já uma artista consagrada. Empenha-se politicamente. Toma partido contra as ditaduras que então assolavam a América do Sul e, particularmente, no México. Integra a Associação de Artistas Livres que viria a ser conhecido como “Salão dos Independentes” de que Myra foi um dos fundadores. Os quadros de Myra transformam-se em leituras esquemáticas. Depurados a um extremo que só os mestres conseguem. São ritmos que viajam em linhas. Linhas que unem e se separam, que convergem e divergem. São o que ela chama de “linhas-viagem”. Linhas rectas imaginárias que a levam ao infinito.

Em 1969, Myra compõe “Ritmo-Homenagem a Salvador Allende”, um quadro de 4x2 metros, que enviou para o Museu da Solidariedade com o Chile. A exposição foi inaugurada em 1972 pelo próprio Allende que Myra tinha conhecido anos antes. Volta ao Brasil. Regressa de novo ao México. Acaba por se fixar em Xalapa, onde viverá os próximos 20 anos. Sempre a pintar, sempre a expor.
Em 1974 entra para a Universidade Veracruzana para dar aulas. Rapidamente entra em divergência com “sistema” e acabará a integrar o Instituto de Investigação Estética e de Criação Artística, de certa forma criado para ela ou por causa dela.

1975 foi um ano marcante. Expõe individualmente no Museu de Arte Moderna da Cidade do México e edita o livro “Si Sabes Ver”, uma edição de autor que só em 84 viria a ser assumido pela universidade, numa 2ª edição. É um livro contra-sistema, contra-corrente, anti-método. Os alunos deixaram de frequentar a universidade e passaram a ir a casa de Myra.

Entre 77 e 79 Myra volta ao Brasil, na sequência da doença do pai, que o levaria à morte. Expõe na Galeria de Arte Global, em São Paulo. Uma exposição individual que a lança mediaticamente no Brasil. Nas ruas pedem-lhe autógrafos. Conhece toda a elite modernista do Brasil.

Regressa a Xalapa em 1979. Trabalha compulsivamente. As exposições sucedem-se. A pintura aparece agora ainda mais depurada. Cada vez mais estilizada. Cada vez mais abstracta. Começa a fazer objectos, colagens, reciclagens. Entre 1980 e 2001, Myra faz cerca de 90 exposições, dentro e fora do México.

Em 1987, o Museu de Arte Moderna do México faz uma retrospectiva da obra de Myra. Foi o culminar de uma carreira que, não tendo terminado, recebe o reconhecimento geral. Foi também em 87 que a famlia se muda a Italia

Em 94 renuncia à Universidade e abandona o México. Passa a residir em Itália. Continua a pintar. Desenvolve uma nova técnica, feita de sobreposições e colagens. As formas deixam de caber nas molduras. Os desenhos saem das margens. São linhas que se continuam a cruzar, mas agora para fora do quadro. Myra ultrapassa o quadrado. Transcende o rectângulo. O espaço ganha um novo volume e a pintura ganha uma nova dimensão.

Em 1998, a filha de Myra parte para a China. Foi nessa altura que lhe deram um computador. Myra tinha então 72 anos. Começou a explorar a máquina e descobriu o Photoshop. Hoje Myra está em contacto com o mundo. Pinta diariamente no seu computador. Criar é o seu destino.

------------------------------------------------------------------------------------------------------------


texto de Jorge Pinheiro para o livro Immagini


nova dimensao da obra a pintura Sai do quadro!!!!!